Relato de Ana Maria Braga sobre o Câncer enfrentado:

careca

“É muito difícil falar sobre uma experiência tão dolorosa como um câncer (Ana teve dois: o primeiro, de pele, em 1991, e o segundo, na região anal, em 2001) porque ainda estou digerindo tudo o que aconteceu. Nesses anos de convivência com a doença, aprendi que a gente tem que sobreviver a ela. Cada dia é um dia.

Tive um momento de revolta quando foi diagnosticado o meu segundo câncer, porém, hoje, penso diferente. Acho que é uma experiência que nunca termina e o mais importante é a lição de vida que você tira dos acontecimentos trágicos que acontecem na sua vida. Para mim, o câncer me deu a certeza da finitude e isso me fez passar a ver a vida com muito mais sensibilidade. Posso dizer que os meus dias ficaram melhores porque hoje é muito raro eu acordar e reclamar das coisas. Estou sempre disposta a superar os problemas que possam aparecer. Aprendi a me relacionar melhor com as pessoas e comigo mesma. Muitos problemas pequenos para os quais dava muita importância, hoje simplesmente passam batidos. Tudo o passei me deu mais tranqüilidade de alma.

Sei também que as mensagens positivas e as correntes de oração que fizeram para mim foram fundamentais para que eu pudesse enfrentar momentos tão difíceis. Recebi muita energia da família, dos amigos e dos telespectadores. Essa fé transformou a minha vida, apesar de que Deus sempre teve um significado muito grande para mim, mesmo antes de ficar doente.

Eu nunca deixei de falar com Deus. Também rezava muito na época em que estudei em colégio de freiras (dos 9 anos aos 13 anos, no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em Franca, interior de São Paulo). Tinha até calos nos joelhos, pois era o dia inteiro rezando.

Desde aquela época, passei a ser devota de Nossa Senhora de Lourdes e sempre tive São Benedito na minha cozinha. Porém, de uns tempos para cá, como todo mundo sabe, Nossa Senhora de Fátima Peregrina se transformou em minha grande companheira. Não que eu tenha deixado de ser devota dos outros santos, mas Nossa Senhora de Fátima passou a ter um significado muito grande porque entreguei minha vida em suas mãos na época do meu segundo câncer. Foi quando ela começou a me visitar em casa. Estava muito carente e a chegada da santa foi uma bênção. Ela virou uma grande amiga. Toda noite, conversava com ela. Chorava a seus pés e encontrava forças para lutar contra a doença. Nossos diálogos eram tão intensos que ouso dizer que ela sorria para mim. Hoje, além de recebê-la com freqüência em casa, onde há um altar reservado para ela, faço uma missa em sua homenagem anualmente (a Missa da Esperança), porque prometi que assim seria caso sobrevivesse. É a minha maneira de agradecer.

Considero-me atualmente uma pessoa espiritualizada, pois, além da crença nos meus santos, sigo princípios do budismo, acredito na vida após a morte e vou tirando um pouquinho de cada religião. Ganho imagens e medalhinhas de muitos santos Brasil afora e guardo-as comigo. O presente mais valioso dos últimos tempos foi um rosário que fizeram para mim na época da passagem do papa Bento VXI pelo Brasil. Fui uma das primeiras pessoas que o papa benzeu. O rosário está na minha sala, na Globo, como uma relíquia.”